domingo, 8 de agosto de 2010

Portal da Virgem

O portal da esquerda, que homenageia a Virgem Maria, em honra de quem foi construída a catedral, foi criado no início do século XIII especificamente para esse local. O volume corporal acentuado e a representação realista das figuras humanas já são características do estilo gótico, que predomina na catedral.

Como ele foi construído de uma vez só, ao contrário do portal de Sant'Anna, que foi montado com partes criadas separadamente, existe uma sequência narrativa que vai do lintel inferior até o tímpano.

No friso inferior há no centro um baldaquino que representa, simbolicamente, a Anunciação. Em seu lado esquerdo encontram-se três profetas e no direito, três reis do Antigo Testamento. Todos eles estão portando uma filacteria - pergaminho sagrado - mostrando que a promessa de Deus foi cumprida, pois enviou seu próprio filho para salvar a humanidade.

O friso superior mostra Maria em seu leito de morte, cercada pelos doze apóstolos e com seu filho entre eles. A mão de Jesus toca o corpo da mãe, indicando a futura ressurreição. Dois anjos a sustém, pela cabeça e pelos pés, preparando-se para elevá-la aos céus.

O tímpano, parte principal do portal, mostra a coroação de Maria como Rainha dos Céus.


Ela se encontra sentada no mesmo trono que Jesus, que a benze e entrega a ela seu próprio cetro, enquanto um anjo pousa a coroa em sua cabeça. Outros dois anjos compõem a cena, ajoelhados e trazendo candelabros em suas mãos.






Assistindo à cerimônia está a corte celestial, representada por anjos, patriarcas, reis e profetas distribuídos nas quatro arquivoltas que emolduram a cena.









No pilar central da entrada vemos a Virgem com o menino.









Na lateral esquerda da entrada desse portal há quatro estátuas, a primeira delas representando o imperador romano Constantino, responsável pela legalização do cristianismo. Há também dois anjos ladeando a imagem de Saint Denis, que segura a própria cabeça. Enviado com outros religiosos para pregar aos pagãos no século III, tornou-se bispo de Paris e foi martirizado numa das perseguições aos cristãos ordenadas pelo imperador romano da época. Decapitado, diz a lenda que seu corpo andou até onde estava sua cabeça tomando-a nos braços, e caminhando dessa forma, guiado por um anjo, chegou até o local onde seria fundada sua futura abadia.


Na lateral direita, outro grupo de quatro estátuas: São João Batista, identificado pelo Cordeiro de Deus, São Estêvão, Santa Genoveva, padroeira de Paris, e São Silvestre, que foi papa durante o período em que Constantino era o imperador de Roma. Considera-se que sua ifluência tenha sido fundamental na criação do Edito de Milão, autorizando a existência da religião cristã.








Ao lado das estátuas, no batente de entrada para a catedral, relevos descrevem o ciclo da vida. Os doze signos do zodíaco simbolizam os meses do ano e, ao lado de cada um, há uma figura que representa o trabalho executado de acordo com o mês.







No pilar central, outros relevos retratam as estações do ano a partir das características apresentadas por uma árvore em cada uma delas. Do outro lado, são apresentadas as idades do homem, da infância à velhice. (Na fotografia que tiramos aparecem apenas a juventude, a maturidade e a velhice.)

sábado, 7 de agosto de 2010

Portal de Sant'Ana

Dos três portais da fachada da Notre-Dame, o da direita é o mais antigo, tendo sido inserido na construção provavelmente por volta do ano 1200.


Trata-se do portal de Sant'Ana, mãe de Maria e avó do menino Jesus. Ao que tudo indica, seu tímpano (a parte triangular mais alta, onde ficam as imagens mais importantes) foi esculpido cinquenta anos antes da instalação e seu destino original não era a Notre-Dame, e sim a igreja de São Estêvão. A rigidez do vestuário dos personagens, bem como o pouco volume dado a eles e a postura frontal, caracterizam esse tímpano como tendo ainda características do estilo românico, diferentemente da catedral como um todo, que é uma das pérolas do estilo gótico.


Nele se pode ver a virgem Maria no ponto central, sentada sobre um trono e sob um dossel, coroada e portando um cetro. Jesus, sentado em seu colo, traz sobre os joelhos o Livro (as Sagradas Escrituras) e abençoa todos nós, encorajando os visitantes a entrar na igreja.

Há um anjo de cada lado do trono, e atrás de cada um deles, outros dois personagens: à esquerda um bispo, que alguns estudiosos identificam como sendo Saint German, bispo de Paris em meados do século VI e profundamente devotado à Virgem. Outros consideram que se trata de Maurice de Sully, tornado bispo da cidade em 1160 e responsável pela construção da catedral.

Diga-se de passagem que o local em que fica a Notre-Dame possui um histórico como sede de cultos religiosos. Os celtas já celebravam ali seus rituais e, posteriormente, os romanos construíram no mesmo sítio um templo dedicado a Júpiter. A basílica de Saint Etienne (Santo Estêvão), primeira igreja cristã de Paris, foi erigida nesse local no início do século VI, sendo depois derrubada e substituída por uma construção românica que durou até o início da construção da atual catedral.

Voltando ao tímpano, atrás do anjo da direita encontra-se um rei que também gera dúvidas quanto à sua identificação: alguns consideram que se trata de Childebert I, monarca que nomeou Saint Germain como bispo após ser por ele curado de doenças, vícios e da injustiça contra os pobres, sendo convertido ao cristianismo. Outros afirmam tratar-se de Luís VII, rei francês no período da construção da Notre-Dame.

Abaixo do tímpano há dois linteis - ou arquitraves - com frisos. O superior apresenta cenas da vida de Maria e da chegada de Cristo à terra, desde a Anunciação até a Epifania. O termo refere-se ao momento em que Ele dá-se a conhecer aos homens como filho de Deus, e o mundo cristão celebra com esse nome três eventos: a epifania perante os reis magos do Oriente (que é a que aparece no lintel), aquela à João Batista no Rio Jordão e a que marca o início de sua vida pública, ocorrido com o milagre das bodas de Caná.


No lintel inferior vêem-se cenas da vida de Joaquim e Ana, os pais de Maria. Por ter sido a última parte a ser colocada no portal, acabou por dar nome a ele (mesmo porque não há muita lógica em seu nome, considerando que a maior parte das imagens se refere à padroeira da igreja).




Sobre o tímpano há arquivoltas concêntricas representando a corte celestial: anjos, reis, profetas e os anciãos do Apocalipse exaltando a glória de Deus.











No pilar central da entrada fica a estátua de Saint Marcel, bispo de Paris no século V, representado vencendo um dragão, símbolo dos vícios que assolavam sua diocese.







Na lateral direita da entrada para a igreja há quatro estátuas: de São Paulo, cujo atributo é o livro, já que ele era o apóstolo culto, falava várias línguas e foi o responsável pela divulgação do cristianismo entre os gentios; do rei Davi, com um instrumento musical em suas mãos, representando os salmos que criava e entoava pra a glória de Deus; da rainha de Sabá, representada com um pergaminho nas mãos, indicativo de sabedoria e de um rei sobre quem não há qualquer identificação sobre quem seja.


Na lateral esquerda, outro grupo de quatro estátuas: de mais um rei "genérico"; de Betsabá, uma das esposas de Davi, por quem ele se apaixonou quando ela ainda era casada. Como ele era o rei, ordenou que o marido dela, Urias, durante uma guerra fosse colocado no local onde a batalha era mais violenta. Obviamente o pobre infeliz morreu e a situação dos amantes foi resolvida: ela tornou-se a oitava esposa (e a preferida) dele e o filho dos dois, Salomão, tornou-se herdeiro do pai no trono de Israel. Aliás, é ele quem está representado na terceira estátua, com o livro nas mãos, outro símbolo da sabedoria pela qual era conhecido. E o quarto é o mais fácil de ser identificado: São Pedro, portando as chaves que dão acesso ao paraíso, ou seja, a santa Igreja Católica.



quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O código Notre-Dame

Descemos os 386 degraus - agora tudo de uma vez só, sem paradinhas - e chegamos ao solo por volta do meio-dia. Como a fila estava enorme e já havíamos comprado os ingressos para visitar a Saint Chapelle e a Conciergerie no período da tarde, optamos por apreciar o exterior da catedral e deixar a parte interna para ser vista no dia seguinte.

As estátuas e relevos que adornam a fachada ocidental são, na verdade, narrativas visuais que compõem um código que era bastante conhecido pela população da época. Os personagens eram facilmente identificados em função dos objetos que portavam, dos trajes que usavam ou mesmo das atitudes em que eram retratados. Conseguimos decifrar parte desse código por meio da observação e dos conhecimentos anteriores que tínhamos, mas alguns dados que serão expostos nesse post serão novidade também para quem fez parte do grupo. Mas não tem problema, na nossa próxima passada por Paris a gente vai olhar de novo, agora sabendo interpretar melhor as esculturas.



No centro da fachada o destaque vai para a enorme rosácea de 9,60m de diâmetro que forma uma espécie de halo envolvendo uma estátua da Virgem com o menino entre dois anjos. Se a igreja é dedicada à Nossa Senhora, é dela o destaque principal.




Nas laterais da rosácea há estátuas de Adão (á direita) e Eva (à esquerda), para que os fieis se recordem do pecado original. Abaixo da balaustrada encontra-se a galeria dos reis, um friso composto por 28 estátuas de 3,5m de altura cada. Do chão não se tem ideia de que elas têm todo esse tamanho!

Essas estátuas representam as 28 gerações dos reis de Judá, descendentes de Jessé e ancestrais humanos de Maria e Jesus, e foram acrescentados à construção no início do século XIII. Rapidamente passaram a ser vistas pela população da época como representações dos reis franceses, e essa interpretação perdurou pelos séculos seguintes. Foi por isso que, durante a Revolução Francesa, as estátuas foram atacadas e mutiladas como símbolo do despotismo monárquico. As peças originais, com as marcas da destruição, são as que se encontram no museu de Cluny; essas que hoje decoram a fachada da catedral foram redesenhadas por Viollet-le-Duc.

A fachada da Notre-Dame conta com três portais e quatro estátuas em sua parte inferior.







A estátua da esquerda representa São Estêvão, que foi diácono (auxiliar na assistência aos pobres e no ato de ministrar os sacramentos) dos Apóstolos.










A da direita mostra Saint Denis, o primeiro bispo da cidade e um dos padroeiros de Paris.











As outras duas estátuas, colocadas em ambos os lados do portal central, são alegorias: a da esquerda representa a Sinagoga, que tradicionalmente é mostrada com uma venda ou algo cobrindo seus olhos. Isso porque há uma base comum nas religiões judaica e cristã, aquilo que faz parte do Antigo Testamento da Bíblia. Porém, os judeus não aceitaram Jesus como o filho de Deus, por isso o templo judaico é representado como incapaz de enxergar a verdade.

A coroa, que representava seu poder, está caída a seus pés e o bastão com o estandarte apresenta-se quebrado. Quanto ao que cobre seus olhos... parece a cauda da serpente!


A estátua da direita é a alegoria da Igreja, que é representada com atitude triunfante: tem a coroa na cabeça, segura com firmeza o estandarte intacto e, na outra mão, traz o cálice sagrado.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

No alto da Notre-Dame

Da galeria das Quimeras tínhamos ótima vista da cidade, e já estávamos inclusive reconhecendo pontos por onde havíamos passado, como a igreja de Saint Julien le Pauvre...








... a torre de Saint Jacques com Montmartre e a igreja do Sacré-Coeur ao fundo...











... e a torre Eiffel com o domo dos Invalides.








A essa altura já nos sentíamos dominando Paris, pois como a cidade é bastante plana, os monumentos mais importantes servem como marcas conhecidas.

Entre as figuras de pedra que ficam mais afastadas da torre norte, onde estávamos, um pelicano chamava a atenção das pessoas. Ocorre que essa ave é simbolicamente associada à figura de Cristo por se considerar que ela oferece seu corpo para alimentar os filhotes. Isso porque os medievais, que certamente não tinham lunetas (elas vão ser inventadas pelos árabes), ao ver à distância o pelicano com o bico aberto permitindo que os filhotes retirassem a comida que tinha no papo, imaginavam que ele estivesse com o bico para o alto oferecendo seu peito para que os filhotes o dilacerassem no sentido de se alimentar, ou seja, sua carne era o alimento dos pequenos da mesma forma que o pão simboliza o corpo de Cristo oferecido aos fieis.


Olhando para baixo, pudemos ver a fila para entrada na Notre-Dame, agora bem maior do que quando chegamos.


Como imaginávamos que esse seria nosso próximo destino, respiramos fundo e nos preparamos para descer e enfrentar a espera.



Fomos, porém, surpreendidos ao saber que havia ainda um lance de escada que nos levaria ao alto da torre sul. Começamos a subida muito animados, acreditando que o final dos degraus estaria "logo ali", ilusão reforçada pelas janelinhas colocadas a espaços regulares e que, deixando entrar a luz externa, passavam a impressão de que o fim do caminho seria logo depois da curva seguinte.



"Logo ali"? Eram 125 degraus, praticamente um terço do total! Mas com certeza valeu a pena. Primeiro porque já estávamos lá em cima mesmo, não teria sentido desistir e descer. E em segundo lugar, porque a vista era ainda mais bonita.

Uma das coisas que ficou evidente daquela altura, foi o formato cruciforme da catedral, que não se percebe claramente do chão ou mesmo quando se está visitando o seu interior.





A "agulha" que fica na intersecção entre os braços da cruz é outra obra de Viollet-le-Duc e foi criada em substituição à que foi derrubada durante a Revolução Francesa.






Novamente impressiona a delicadeza dos detalhes em seu corpo.





Segundo o folder que é distribuído antes da subida à torre - e que tem versões em francês, inglês, alemão, espanhol, português e uma língua oriental (acho que era japonês, mas vou confirmar com a Natália) - "quatro grupos de três apóstolos, acompanhados por representações alegóricas dos evangelistas, descem de ambas as partes do arco. No seio do grupo do evangelista João, simbolizado por uma águia, São Tomás é representado com os traços de Viollet-le-Duc e volta-se para a agulha como para admirar sua criação."








Algo que nos chamou a atenção foi o conjunto de degraus "tortos" que havia ao lado das pequenas torres que completavam os dois braços menores do transepto. Considerando a altura da coisa, quem teria coragem de subir neles?






Lá de cima conseguimos visualizar os arcobotantes por outro ângulo, notando inclusive a calha que eles têm na parte de cima para a captação da água da chuva que cai da boca das gárgulas, e que termina em pequenas torres de onde saem novas gárgulas.


A parte posterior da catedral é também a porção final da Île de la Cité, onde os dois braços do Sena que formam a ilha voltam a se unir num só curso d'água.




Ao sul o domo do Panthéon domina a paisagem...









... mas a torre Eiffel, o "cartão postal" de Paris, marca sua presença.

domingo, 1 de agosto de 2010

Quimeras da Notre-Dame

A parada seguinte foi na Galeria das Quimeras, que fica a 46m do solo.













Essas criaturas não são originais, foram desenhadas pelo arquiteto Viollet-le-Duc, um dos primeiros teóricos da preservação do patrimônio histórico e que desenvolveu grande parte do seu trabalho no restauro de catedrais e castelos medievais no século XIX.














Profundo admirador da arquitetura e estatuária góticas, a maior parte de suas obras é baseada na imagem medieval com recurso a meios de construção modernos. É considerado o precursor teórico da arquitetura moderna ao insistir na "honestidade" relativa à expressão dos materiais: gesso não deveria, por exemplo, ser utilizado de modo a parecer pedra; estruturas metálicas deveriam ser trabalhadas em sua especificidade para parecerem belas, ao invés de serem escondidas por trás de madeira ou qualquer outro tipo de cobertura.





























Encontramos entre as figuras os três personagens do desenho "O Corcunda de Notre-Dame", da Disney: aqui temos o Victor...






... Laverne e Hugo.







O escritor Victor Hugo, na verdade, foi o responsável por despertar o interesse pela igreja com seu romance Notre-Dame de Paris, publicado em 1831. Mais conhecido com o nome adotado pela Disney para lançar seu desenho, boa parte da trama se desenrola nas torres e um dos papeis principais pertence a Quasímodo, o sineiro que vivia nessa parte da catedral, entre escadas e a estrutura de madeira de seu interior.


















Esse é o maior sino da catedral, fabricado no século XVII e nomeado "Emanoel". Ele pesa mais de treze toneladas e só toca nas grandes festas católicas.





A parte externa das torres mostra o cuidado com que os detalhes foram esculpidos. A impressão que se tem é a da delicadeza de uma renda e não de uma estrutura em pedra e alvenaria.