segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Montmartre com cereja

Ao voltarmos para a frente da Sacré-Coeur, percebemos que nossos horários de visitação eram mesmo os melhores, pois a quantidade de pessoas que se espalhavam pelas escadarias e pelos jardins era muito maior do que a que havia quando chegamos. A vantagem, porém, do horário adiantado, é que os músicos que se apresentam por lá em troca de algumas moedas já estavam em plena atividade.























Logo abaixo do primeiro patamar, que fica após o último lance de escadas para se chegar á basílica, há três fontes incrustadas em nichos semelhantes a grandes conchas.


E a partir daí, descendo sempre, jardins maravilhosos.

















Nossa próxima parada era o edifício da Ópera de Paris, para onde resolvemos ir a pé, caminhando pelo bairro de Montmartre. Só que, depois da subida de tantos degraus na Sacré-Coeur, precisávamos de mais "combustível", e começamos a procurar algum lugar simpático onde pudéssemos parar pra fazer um lanchinho. Encontramos um restaurante que também servia porções numa das ruas logo abaixo dos jardins da basílica, com mesinhas na calçada sob um toldo que protegia do sol que estava começando a mostrar que aquele seria um dia de verão característico da era do aquecimento global.

Nos acomodamos e pedimos uma porção de pão de alho e queijos, vários queijos. Não apenas porque todos do grupo amam os queijos que aqui no Brasil custam tão caro e lá são tão em conta, mas também porque na bolsa da Rejane estavam os restos mortais dos queijos que havíamos comprado para o piquenique no quarto do Luís, alguns dias antes. Claro que eles haviam ficado na geladeira do hotel esses dias todos, mas não estávamos pretendendo levá-los no avião, então teríamos que consumi-los antes de embarcar, e para isso tivemos que tirá-los discretamente do saquinho plástico onde estavam embalados e misturá-los com os queijos da porção que pedimos.

Enquanto estávamos só nós no restaurante, mantivemos a maior finesse, mas assim que outro casal se acomodou e o garçon entrou para fazer o pedido deles à cozinha, rapidamente abrimos as embalagens e colocamos nossos pobres queijos tão amassados junto com os outros. Verdade seja dita: estavam todos muito bons!

Felizes e satisfeitos, e com a bolsa um pouco mais leve, iniciamos a descida até o nosso destino, apreciando o charme desse bairro que passou a fazer parte da cidade de Paris apenas em 1860, tornando-se então o centro da vida boêmia local, com seus cabarés frequentados por artistas e intelectuais.


Não foi por acaso que boêmios e artistas encontraram em Montmartre o seu espaço: tratava-se de um local afastado o suficiente das residências nobres, onde dançarinas de cancan, prostitutas e bebedores de absinto podiam circular sem afrontar o convencionalismo burguês. 

E os homens bem nascidos que apreciavam a excitação dos cabarés e a intensidade presente na vida e nos ateliês dos artistas sabiam onde encontrar tudo isso, principalmente no período da Belle Époque, quando a vida intelectual europeia tinha por base a "Cidade Luz" e pelas ruas de Montmartre circulavam Van Gogh, Renoir, Degas, em busca de suas bailarinas, Monet, Cézanne e Toulouse-Lautrec, com suas magníficas obras que muitas vezes retratam a vida real por trás dos bastidores.

Atualmente o bairro continua charmoso, mas a vida noturna é muito mais direcionada para turistas, com uma boemia mais calcada no consumo do que nas discussões intelectuais e na livre expressão da arte.

Cruzamos a Place Pigalle, tradicional ponto de prostitutas, sex-shops e cinemas que exibem filmes pornôs, àquela hora da manhã uma praça comum, com turistas de bermuda e francesas de salto alto circulando normalmente. Na rua que tomamos a seguir, sempre observando as pequenas vielas e alguns prédios bem característicos, passamos por um local que vendia frutas, e entre elas um monte de cerejas. Não deu pra resistir! Elas são bem maiores do que as que a gente encontra aqui em São Paulo, estavam vermelhinhas, as cascas brilhantes... comprei meio quilo, num saquinho de papel, e fizemos o restante de nossa caminhada nos deliciando com elas.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

No alto da Sacré-Coeur e descendo

Ao observar de cima o entorno da basílica, vimos prédios belos e diferentes, característicos de locais com uma longa história atrás de si.

A construção de pedra é muito bonita, e as pequenas chaminés são bastante curiosas, coisa que até então só havíamos visto em filmes.
















Além da vista maravilhosa da cidade, da qual começávamos a nos despedir,...


... também era possível ter uma visão geral dos jardins que ficam na frente da basílica, descendo Montmartre.


Nas paredes internas do domo, uma série de relevos com linhas entrelaçadas, elemento característico da cultura celta que, posteriormente, foi adotado pelo mundo cristão medieval. O próprio trísquelo - ou trisquelion - passou a representar o caráter trinitário de Deus, expresso pela Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

Uma pena o fato de estar tudo pixado, rabiscado com as assinaturas das belezinhas que sobem ao domo e acham que alguém está se importando em saber que elas conseguiram. Infelizmente, turista é turista em todo lugar...







Ainda bem, no entanto, que alguns dos que deixaram sua mensagem no alto do Sagrado Coração foram mais criativos e românticos.


E,obviamente, nem todos os turistas eram trogloditas como uma menina (brasileira) que vimos enquanto aguardávamos para subir às torres da Notre-Dame, no início da semana, que olhou o tamanho da fila e lascou: "Vê lá se vou perder uma hora da minha vida numa fila pra ver pedra!"

Além de nós, que formos turistas exemplares - excetuando-se a passagem pela catraca do metrô sem pagar -, encontramos no domo da Sacré-Coeur um grupo de coreanos super simpáticos, que bateram a única foto em que nosso grupo aparece junto.


Depois que a Natália se fartou de observar os rapazes coreanos (uma preferência pessoal) e nós de olhar a cidade lá de cima, iniciamos o percurso para baixo, parte naquelas escadas claustrofóbicas...


















... e parte ao ar livre, com direito ao odor de pombas e seus dejetos.



















Lá embaixo, tendo visto tudo o que era possível no Sagrado Coração, tivemos olhos para apreciar outras belas construções que cercam a basílica.


















quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Subindo ao domo da Sacré-Coeur

Depois de circularmos à vontade no interior da igreja, admirando a decoração belíssima e absolutamente eclética - além do mosaico (bizantino), havia estrelas de Davi (judaicas), imagens do Sagrado Coração e da Virgem Maria (católicos) e imagens maçônicas -, fomos em busca do caminho para o alto. Porém, ironicamente, o início da escadaria que sobe ao domo fica junto com a que desce à cripta.

Descemos, portanto, já nos preparando para uma subida dura, e fomos em frente. A vantagem é que há vários pontos intermediários onde vale a pena parar para observar a vista da cidade ou os detalhes arquitetônicos e decorativos da Sacré-Coeur, como uma gárgula para escoamento de água no formato de um bode.


Não é difícil entender o porquê desse animal no mesmo lugar em que há criaturas monstruosas em outras igrejas, ao nos lembrarmos que o bode simboliza a luxúria, um dos pecados capitais. Não é por acaso que o diabo tem cascos e, muitas vezes, os próprios chifres de bode.

Essas paradas no meio do caminho são providenciais para um descanso, porque os degraus são muitos e bastante íngremes. Além disso, por esse trecho ser de escadaria externa, o fedor de cocô de pombo é desesperador: a pessoa tenta respirar fundo pra conseguir ar suficiente para mais um trecho de subida e o nariz é agredido instantaneamente.

Porém, nada que não seja compensador, tanto pela vista maravilhosa que se tem de Paris quanto pelos detalhes arquitetônicos que são impossíveis se visualizar lá de baixo.


Continuamos a nossa jornada, agora por uma escadaria interna que dava até uma sensação claustrofóbica, tão estreito o espaço e tão contínua a espiral.



Enfim, chegamos ao topo, de onde pudemos apreciar uma magnífica vista da cidade de Paris...


... e o campanário (torre que abriga os sinos de uma igreja), que fica na abside da basílica ("cabeceira" da igreja, onde fica colocado o altar) e abriga um dos maiores sinos do mundo, com 3m de diâmetro e cerca de 26 toneladas.
Estávamos entretidos, observando as estátuas que decoram a parte superior do campanário, como anjos portando tábuas com imagens que não conseguimos identificar, quando percebemos que, acima deles, estavam nossos velhos conhecidos: os evangelistas!

A partir do domo, só foi possível enxergar os dois que estavam do mesmo lado do campanário: o Leão (Marcos) e o Boi (Lucas).
Abaixando o olhar, podíamos ver o telhado da parte posterior da igreja, decorado com um grupo em bronze onde se destacam um anjo, portando um estandarte, e a seus pés, um crocodilo atravessado por uma espada.


Ficamos sem saber qual o significado do grupo, mas depois que voltamos de viagem, uma pesquisa indicou que o braço direito de Lúcifer, entre a legião de demônios que ele comanda, é Agaures, que ensina línguas e faz com que os espíritos terrestres dancem, distraindo seus inimigos. Ele geralmente se apresenta como um nobre senhor, sempre montado a cavalo, trazendo no braço um falcão e levando consigo um crocodilo.

Será que a estátua representa o bichinho de estimação desse grão-duque sendo abatido por um dos anjos guerreiros do Senhor?

sábado, 30 de julho de 2011

Na basílica do Sagrado Coração

A igreja atual recebeu o título de basílica, ou seja, um local de peregrinação, no ano de 1919, quando foi consagrada. Sua construção, iniciada em 1875, está ligada à guerra franco-prussiana, porém essa é uma as poucas unanimidades em sua história, já que existem várias versões para explicar o motivo de sua edificação.

Sabe-se que dois comerciantes da região, Alexandre Legentil e Hubert Rohault de Fleury, foram os responsáveis não apenas pela iniciativa de erguer a igreja, mas também por iniciarem os donativos e lutarem pelo financiamento junto ao Cardeal Arcebispo de Paris e aos órgãos legais. O que gera dúvidas é o motivo que os levou a fazer tal promessa: uma das versões afirma que, iniciados os conflitos entre a Prússia e a França, ambos fizeram a promessa de erguer um templo dedicado ao Sagrado Coração caso seu país resistisse às ofensivas do exército inimigo - o que não aconteceu, pois, iniciada em 1870, a guerra terminou no ano seguinte, com a derrota francesa e a assinatura de um tratado que criou a Alemanha como nação e passou para o controle desse novo país a Alsácia e a Lorena, regiões francesas ricas em ferro e carvão mineral.


Uma segunda versão defende que Alexandre e Hubert tinham uma visão espiritual a respeito dos problemas que seu país atravessava, como a guerra com a Prússia e a crise ocorrida com a criação da Comuna de Paris, o primeiro governo operário da história. Nesse caso, a construção da igreja seria uma forma de reparação, penitência pelos pecados cometidos pela população.

Outra explicação, por fim, defende que a igreja foi construída em homenagem aos 58 mil mortos da guerra franco-prussiana. Porém, qualquer que tenha sido o motivo de sua construção, a igreja é uma das referências da cidade, com sua cúpula central erguendo-se a 80 metros de altura, circundada por quatro cúpulas menores, todas em estilo bizantino, e seus arcos e colunas típicamente romanos.

À frente da cúpula central há uma enorme estátua do Sagrado Coração, que dá nome à igreja...

















... ladeada por estátuas de Luís IX, o São Luís, que trouxe a coroa de espinhos de Cristo para a França... 

















... e de Joana D'Arc, a santa padroeira da França.




















Infelizmente não é permitido fotografar no interior da igreja, portanto, como nesse blog só há fotos feitas pelos viajores, não será possível visualizar o incrível mosaico de seu interior, o maior da França, que cobre 473 metros quadrados e levou quatro anos para ser completado. Ele não apenas é imenso e imponente, mas também maravilhoso em sua característica bizantina, com as auréolas douradas de Cristo, Maria e do anjo. A seus pés estão a Igreja, representada por um bispo, e a França, por uma mulher portando uma coroa, além da frase "No Coração Santíssimo de Jesus, a França fervorosa, penitente e agradecida."

Os detalhes bizantinos externos, porém, além de bastante evidentes, podem ser fotografados à vontade!


A Sacré-Coeur também tem três portais, como as igrejas góticas, mas sua decoração é bem mais sóbria. No tímpano do portal esquerdo há um relevo de Cristo conduzindo penitentes (ou talvez lagelando-os), sobre a frase Este templo é um penhor da penitência e da devoção.

















No portal central, o relevo mostra o momento em que Longinus, um centurião romano, perfura o flanco de Jesus. Sob o relevo, a frase Ao Santíssimo Coração de Jesus.


O último portal, do lado direito, tem em seu tímpano a representação de Cristo abençoando os sofredores, e sob a imagem, a frase A França, agradecida, dedica no dia 16 de outubro de 1919.

O curioso é que as frases tanto funcionam de forma independente, cada uma com seu sentido próprio, como podem formar um período mais longo: Esse templo, penhor de penitência e devoção, ao Santíssimo Coração de Jesus, a França, agradecida, dedica em 16 de outubro de 1919. Mais bizantino, impossível!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Rumo à Sacré-Coeur

Conforme acertado no dia anterior, após o café da manhã fizemos o check-out no hotel, deixamos nossas malas no guarda-volumes e seguimos para o metrô rumo a Montmartre.

Por todas as vezes que havíamos avistado a Sacré-Coeur, já sabíamos que ela ficava no alto da única colina que há em Paris, que é uma cidade bastante plana. Só que como pretendíamos subir ao domo da igreja para apreciar a vista, subir o morro para chegar até ela estava fora dos nossos planos, por mais que nos doesse o coração não poder fazer um passeio longo e descompromissado seguindo as pegadas de Amélie Poulain. Porém, antes esse tipo de dor no coração do que dor nas pernas...

A opção, portanto, foi tomar o metrô até a estação Anvers e de lá caminhar até o funicular. Como sempre saíamos cedo, as lojas no entorno estavam fechadas, o que não nos impediu de admirar uma loja apenas de doces: biscoitos, balas, bombons... a própria fornecedora da bruxa da história de João e Maria!



Continuamos caminhando e chegamos ao funicular, que é pago com o mesmo passe que é utilizado no metrô. A cabine sobe, pelo plano inclinado, até o alto da colina onde fica a igreja.
Montmartre é "monte dos mártires" e o local recebeu esse nome por ter sido o local do martírio de Saint Denis, o primeiro bispo de Paris, que teve a cabeça cortada pelos pagãos que não aceitavam o cristianismo no século III.








Adoramos a subida, principalmente porque precisávamos economizar as pernas.

















Apesar do acrílico das janelas da cabine estar bastante riscado, já dava pra ter uma ideia da vista que teríamos mais acima.


Saindo do funicular, o acesso à igreja é feito por uma escadaria bastante larga que tanto pode funcionar como local pra se posar pra fotos...


















... como local de onde Paris pede para ser fotografada.















No local onde está instalada a Sacré-Coeur, existia um mosteiro beneditino que foi destruído no período da Revolução Francesa, quando todos os religiosos que a ocupavam foram guilhotinhados. Porém, o local continuou a ser considerado sagrado, inclusive por ter sido visitado por várias figuras santas, como Saint Germain, Santa Clotilde (a esposa de Clóvis, o unificador dos francos), São Bernardo, Santa Joana D'Arc e São Vicente de Paula e por ter sido o local onde Santo Ignácio de Loyola e São Francisco Xavier fundaram a Companhia de Jesus em 1534.  
  
A construção atual diferencia-se das demais igrejas de Paris por dois motivos: o fato de ser dedicada ao Sagrado Coração, em oposição aos vários templos erguidos em homenagem à Virgem Maria, e por seu estilo romano-bizantino, que se destaca entre as construções góticas que predominam na cidade.

Construída em mármore travertino vinda da região de Seine-et-Marne, na própria França, a igreja mantém-se branca pelo fato dessa pedra exsudar cálcio constantemente, o que a protege da deterioração causada pelas chuvas e pela poluição.

sábado, 2 de julho de 2011

Enfim, um legítimo francês!

Chegando ao hotel, resolvemos dar uma descansada básica antes de sairmos para o jantar, porque o cansaço era grande. A Natália avisou que não sairia conosco para o restaurante, fosse ele qual fosse, porque além de estar exausta, queria apreciar o que havia comprado no supermercado: bolachas, pãezinhos, chocolates e todas aquelas "bobagens" que quebram um galho quando não se quer sair pra comer.


A Rejane disse que iria comer com ela mas iria conosco, depois, ao restaurante, nem que fosse apenas pra tomar alguma coisa e jogar conversa fora.


Nesse dia eu havia conversado com a Anne, amiga do Vítor, pois ela estava encarregada de buscar a família da Nicole e o Vítor no aeroporto no dia seguinte, já que eles todos ficariam hospedados em sua casa. Em princípio nós achamos que seria uma boa encontrar-nos todos na sexta-feira para almoçarmos juntos, eles chegando a Paris e nós indo embora. Mas depois de conversar com Ivan, Natália, Rejane e Luís, chegamos à conclusão de que seria muito complicado - e arriscado. Caso o voo deles atrasasse, isso atrasaria o almoço e nos atrasaria para sermos pegos no hotel pela van da agência que nos levaria até o aeroporto para voltarmos ao Brasil. Portanto, liguei pra Anne novamente (e dessa vez consegui encontrá-la de primeira) e desmarquei o compromisso.


Tudo resolvido, nos encontramos no saguão do hotel e seguimos a pé para um restaurante próximo, com todo o jeito de bistrô francês mesmo: meia luz, mesas pequenas e bem próximas umas das outras e, o "melhor" da história, pra fechar a viagem com chave de ouro, o dono/gerente era também o típico francês, que faz cara feia quando se depara com turistas que não sabem muito bem falar a língua do país.

Sentamos, consultamos o cardápio, fizemos nossas escolhas e chamamos o indivíduo para fazermos o pedido. Eu comecei arriscando o francês "meia-boca" que já estava falando depois de quase uma semana em Paris e, pra facilitar, perguntei que língua ele falava. "Francês", respondeu o cretino, com aquele levantar de sobrancelhas pra indicar que eu era idiota por estar perguntando. Foi aí que o Ivan encheu o peito e lascou o pedido de tudo o que queríamos... em francês e levantando a sobrancelha!

Como era nossa última noite na cidade, levamos na boa e até comemoramos, pois até então, praticamente todo mundo tinha sido muito educado e prestativo, não havíamos ainda comprovado a falta de educação e o mau humor crônico dos franceses. Fora isso, a comida estava deliciosa e o ambiente era muito bom.

Aproveitamos para traçar os planos para o dia seguinte, pois teríamos que fazer o check-out do hotel até o meio-dia, mas a van da agência passaria pra nos pegar às 18h. O plano foi arrumar as malas e solicitar que fossem colocadas no guarda-volumes logo após o café da manhã. Sairíamos então para os últimos passeios - a Sacré-Coeur, Montmatre, Galeries Lafayette e o edifício da Ópera de Paris - e voltaríamos a tempo de fechar a conta, trocar a roupa que fosse necessária (que estaria na bagagem de mão) e pegar a van sem atrasos. 


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Saladas e impressionistas

Saímos do Invalides em busca de um lugar para almoçar e nos lembramos de um restaurante simpático que ficava ao lado do local onde havíamos comido os crêpes. O lugar era bem gostoso, com mesas numa área aberta sombreada por um toldo e pelas árvores da calçada.

Rejane e eu pedimos saladas e não nos arrependemos. Não foi aquela saladinha de folhas básica pra quem está fazendo dieta, e sim uma salada de respeito! Uma era de arroz e a outra de macarrão, frios, naturalmente, e com uma variedade deliciosa de "incrementos": atum desfiado, tomate picado, cenoura ralada, champignon, azeitonas, lascas de parmesão, frango desfiado... Cada um delas com alguns desses itens, mas ambas com a mesma apresentação, que achamos genial: com fatias de pepino cortadas no sentido do comprimento, como se fossem faixas largas, é montado um aro, colocado no centro do prato, dentro do qual vai a "super salada". Em volta dele ficam as verduras: rúcula, alface, endívia e outras. Sobre tudo isso, um molho delicioso, à base de mostarda ou de azeite temperado. Pra acompanhar, vinho branco gelado e u-lá-lá!

Saímos de lá refeitos e seguimos para a estação de metrô que nos deixou no museu D'Orsay, a escolha da Rejane. Infelizmente, é proibido fotografar lá dentro, a máquina tem que ser deixada dentro da bolsa, na chapelaria, portanto só conseguimos imagens das estátuas de alguns bichinhos meigos e delicados que ficam do lado de fora.


Se por um lado é chato não poder fotografar - e depois mostrar aos amigos, comentar e relembrar - por outro é muito melhor durante a visita, pois sem a preocupação de escolher o que vai ser documentado, a apreciação é mais tranquila.

O Museu D'Orsay funciona numa antiga estação de trem, portanto já dá pra ter ideia do tamanho do local. A distribuição dos espaços era mais ou menos conforme o esquema a seguir (e me perdoem os conhecedores e arquitetos por todas as falhas que ele possa apresentar, a intenção é só facilitar a descrição). Não coloquei as escadas e os diversos acessos aos andares, porque aí também seria muita pretensão...


A entrada é pelo terraço e de lá há várias escadas para a galeria central, onde ficam as esculturas, ou para as laterais, onde estão os quadros. A partir dessas galerias há entradas para salas, que às vezes são ligadas entre si. Em algumas delas há subdivisões internas e paredes, que são altamente necessárias quando o negócio é exibir quadros.

Ao contrário do Louvre, onde me deliciei principalmente com as esculturas, no Orsay resolvi investir meu tempo e minha atenção aos quadros. Começamos pela longa galeria à direita, onde estão algumas obras impressionistas bastante importantes. O problema é que para se apreciar uma obra desse estilo como se deve, há que se dar uma certa distância do quadro, o que era impossível não só devido à largura da galeria, com quadros dos dois lados, mas porque havia muita gente. Além de serem muitas pessoas, elas "passeavam" pelo espaço central da galeria como se estivessem num shopping olhando as vitrines, sem parar para apreciar coisa alguma, conversando entre si, empurrando carrinhos de bebê e andando num ritmo constante, como se estivessem cumprindo uma obrigação.

Ainda bem que as salas internas eram mais vazias, já que o "dever" de entrar no Orsay não devia incluir uma visitação completa; olhar o que estava mais à mostra devia ser o suficiente.

O acervo exposto é simplesmente incrível, daria para passar dias observando com cuidado não só as obras em si, mas a própria história da arte, pelas diferenças de técnicas e concepções artísticas que se sucedem, sala após sala.

Uma situação engraçada ocorreu na sala em que estão as obras de Gustave Courbet, um pintor realista que costumava escandalizar o público da época com seus nus. Uma de suas obras mais famosas é "A origem do mundo", que mostra o corpo de uma mulher nua, deitada, do início das coxas até os seios, com o ângulo de visão partindo de seus genitais. Como a obra é realista, dá pra imaginar o choque das pessoas ao dar de cara com "AQUILO"!

Para não causar constrangimentos, a tela fica numa das salas internas (na que eu desenhei no centro à esquerda), na parede interna, voltada para dentro, de modo que as pessoas que passam na galeria ou apenas dão uma espiada na sala não a veem. Era curioso observar as pessoas que chegavam até ela: as mulheres, em geral, davam risadinhas, principalmente as orientais. Uma senhora fez cara de reprovação, mas o melhor foi um homem, americano, que entrou na sala com dois meninos pequenos, de 5 e 8 anos, mais ou menos. As crianças não viram o quadro logo que entraram, mas assim que o pai enxergou, fez cara de choque total e, notando que os filhos ainda não haviam percebido a imagem, comentou que ali não havia nada de interessante para ser visto e foi "tocando" os dois pra fora da sala.

Essas galerias e salas laterais não ocupam altura total do prédio, como é o caso da galeria central. Há um segundo andar com salas que expõem fotografias e, melhor que tudo, peças e mobiliário no estilo Art Nouveau. Ficamos simplesmente encantadas com a reprodução dos ambientes e lamentei não poder fotografá-los, pois seriam extremamente úteis nas aulas de História do Design.

Havíamos combinado um horário para nos encontrar e encerrar a visita, já que cada um seguiu por um caminho, de acordo com o interesse. Como era o penúltimo dia de nossa viagem e havíamos encarado caminhadas e escadas a semana inteira, o cansaço já estava se manifestando, mas nada que uma paradinha nos bancos da galeria central, apreciando as esculturas e a própria arquitetura interna do Museu, não resolvesse.

Passamos ainda na lanchonete, estrategicamente colocada sob o Terraço (aliás, há diversos lances de escadas levando a andares superiores, inferiores ou à meia altura, dependendo de onde se está), onde conseguimos encontrar água de uma das marcas que havíamos aprovado. Considerando o calor que enfrentaríamos do lado de fora, era necessário nos hidratarmos antes de sair.

Caminhamos até o metrô e lá, dentro da estação, uma agradável surpresa: um grupo de artistas de algum país da Europa Oriental - reconhecidos por nós pelo estilo da música - cantando e tocando.


A música nos deixou tão animados, que o Luís deu mais uma demonstração de seu cavalheirismo, ajudando uma mulher a levar o carrinho de bebê, COM o bebê dentro dele, escada acima, num dos locais onde não havia escada rolante.